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Comentários da Lição 8 (2º Trim/2016) por Guilherme Carrijo, Jeser Castro e Ricardo Dantas

PEDRO E A ROCHA

Pedro é mais um personagem que compõe o quadro pintado por Mateus em seu livro. Como uma montanha-russa, percebemos que foi um homem comum. Assim como eu e você, ele enfrentou dificuldades, caiu, se levantou, lutou…

Pedro é autor de duas cartas na Bíblia. Sua produção literária é pequena quando comparada com outros autores, por exemplo, Paulo. Contudo é de uma influência muito importante no Novo Testamento. Como por exemplo, o livro de “Atos dos Apóstolos” que pode ser divido em dois momentos: Atos de Pedro (boa parte da primeira metade do livro) e Atos de Paulo.

Uma figura impulsiva, emocional, impetuosa, Pedro não se demorava com seus pensamentos antes de pronunciá-los, algo que a maioria de nós carrega (em maior ou menor grau) e precisamos cuidar.

Nos evangelhos percebemos Pedro na dianteira de várias cenas, se tornando um protagonista bastante influente nesses relatos.

O nome Pedro, que hoje é tão comum no mundo todo, na verdade era um apelido carinhosamente escolhido ao discípulo que originalmente tinha o nome de Simão. Jesus ao conhecê-lo um pouco mais decidiu mudar seu nome para Cefas, que significa “Pedro”. A palavra usada aqui é Kepha, uma palavra aramaica, muito rara de ser encontrada em escritos. Na bíblia ela aparece em dois momentos do Antigo Testamento hebraico, ambas no plural Kephim, sempre com aplicações à rochas e pedras.

Jesus em Sua onisciência conheceu Simão e já percebeu seu caráter rude, rústico, como uma pedra bruta a ser lapidada. Seus ideais eram veementemente defendidos com emoção, e ele era tremendamente verdadeiro e honesto com aquilo que sentia.

O que acontece em Mateus 16:13-20, é uma das histórias mais emblemáticas do livro de Mateus. É o momento em que a história de Jesus passa por uma transformação. Até o capitulo 16 as pessoas estão encantadas com os milagres e as doutrinas de Jesus, e após este relato uma mudança muito rápida foi posta em marcha como veremos a seguir. A pergunta que pairava por entre as pessoas era: “quem é este?”, “quem é este que tem domínio sobre a natureza?”, “quem é este fazedor de milagres?”.

A Pedra (Angular)

Jesus passava por uma região predominantemente pagã, Cesaréia de Filipe, e possivelmente já havia ouvido diversas idéias diferentes à Seu respeito ali, inclusive quando perguntou aos discípulos diretamente obteve como resposta o pensamento comum da época. A variedade de opiniões que os homens tinham em relação a Jesus mostrava que mesmo muitos O relacionando com a profecia messiânica, Ele não era compreendido da maneira correta. João Batista era o precursor profetizado (Mt.3:1-3; 14:1-2). Elias era aquele que precederia o “dia do Senhor” (MI.4:5-6). Jeremias era esperado que aparecesse e restaurasse a arca que supostamente escondera. “Muitos estavam dispostos a aceita-Lo como profeta, porém não acreditavam que Ele fosse o Messias” (DTN p.411,412). Mas então Cristo aperta o cerco, Ele queria saber a opinião dos discípulos – não aquilo que era falado pelo povo. Pedro é o primeiro que assertivamente declara: “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo” (verso 16). Naturalmente, não poderíamos esperar outra reação. Pedro com sua personalidade era o representante dos discípulos, e falava em nome dos seus colegas. Jesus reage entendendo que Pedro havia sido instruído pelo próprio Deus para chegar àquela conclusão. Não era pela lógica humana que Pedro entendera, pois era absurdo à um judeu reconhecer divindade em um homem. Jesus de fato havia nascido aqui, porém Ele não era daqui. Ele costumava a apresentar-Se como Filho do Homem, mas Pedro declara aqui Sua natureza divina, o Filho do Deus vivo! Neste momento Jesus faz um trocadilho com o nome de Pedro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro (petros), e sobre esta pedra (petra) edificarei a minha igreja” (verso 18). É a primeira vez que a expressão “igreja” aparece na Bíblia, e daí que surge a confusão. Uma boa parcela da igreja cristã se organiza olhando para este texto com a crença de que Pedro é a pedra mencionada por Jesus.

Olhando para o contexto imediato, podemos perceber a liderança natural de Pedro em meio aos discípulos. Paulo mesmo menciona que ele foi um dos pilares no surgimento da igreja, embora ele não fosse o “líder supremo” da igreja que estava se organizando, e este é um detalhe importante para destacarmos, que ajuda a entender o significado deste texto: ao nos depararmos com questões da igreja primitiva, como por exemplo o tratamento com os gentios recém conversos (no tocante aos “deveres” requeridos para integrarem o corpo da igreja) a palavra final é de Tiago, irmão de Jesus (Atos 15). Veja que todos deram suas opiniões e inspirados pelo Espirito Santo ajudaram na formatação de um “código”, inclusive Pedro. Contudo o líder da igreja primitiva era Tiago.

Pedro era um missionário, e, como um dos pilares da igreja, foi até Roma para lá pregar o evangelho. Outras figuras importantes se dirigiram à outras regiões com o mesmo intuito, e como não havia ainda uma organização estruturada, podemos notar divisões trabalhando na pregação do evangelho (Roma, Síria, Norte da Africa, Jerusalém, etc), e cada uma destas lideranças remetiam sua autoridade aos apóstolos (André, Pedro, Tiago e outros), naquele momento não havia uma “hierarquia” formada.

Pois bem, no século IV o imperador romano se converteu ao cristianismo e procurou aproximar a política da religião, e daí se formou a ideia de sucessores nos líderes da igreja em Roma, chegando até Pedro que havia morrido em Roma, crucificado pela tradição de cabeça para baixo para não se assemelhar ao seu Mestre. Olhando para a história percebemos que no início a igreja não se reportava à Pedro como o líder da cristandade, pois esta estava espalhada no mundo conhecido, e tinha diversos outros líderes atuando simultaneamente. Mas o passar do tempo somado à centralização do mundo cristão direcionada pelo imperador à Roma, foi-se teologicamente justificada as sucessões da liderança da igreja neste texto de Mateus, para dar autoridade superior ao bispo de Roma sobre os outros bispos regionais, pois esta autoridade deriva de Pedro, a “pedra fundamental” declarada pelo próprio Cristo no verso 18…

Mas será que foi exatamente isso que Cristo quis dizer? Não fosse pela crença romana nesta passagem, não haveriam dúvidas de que a Rocha é Cristo. Pedro, como um representante em destaque dos apóstolos é um dos pilares que compõem a igreja: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Ef. 2:20) [leia também 1Co.10:4 e Mt.7:24].

Figuras carismáticas, líderes midiáticos e qualquer homem proeminente pode fundar uma igreja. Vemos isso acontecendo o tempo todo. Contudo fundar a comunidade do Reino de Deus na terra, sé é possível através do filho do Deus vivo.

A Entrega das Chaves

Em seguida, Mateus no verso 19 descreve algo muito curioso, Jesus supostamente passa à Pedro uma autoridade de ligar e desligar as coisas na Terra e no Céu, através um simbolo que é a “entrega” das chaves.

Como explicar Jesus dando as chaves dos Céus à Pedro? Podemos pensar: “tudo bem, a Rocha é Jesus, mas Pedro teve uma função importante na fundação da igreja, porque Jesus deu a chave do Reino para ele – o que você ligar na Terra é ligado no Céu, o que desligar na Terra é desligado no Céu – quer dizer que ele tinha autoridade para determinar o que acontece até no Céu.” Isso dá realmente uma ideia de um poder acima de todas as coisas dado à Pedro. Mas no próprio evangelho de Mateus, capítulo 18 versos 15 a 20, quando Jesus fala sobre perdoar irmãos, agregar pessoas, resgatar pessoas que se desviam, que se afastaram, pessoas que por vontade própria seguem o caminho do erro, e o trabalho de busca que a igreja faz para manter essas pessoas na comunidade, Ele de novo cita estas mesmas palavras, contudo não dirigindo-as mais à Pedro, e sim estendendo à igreja como um todo (Mt. 18:18). Em outras palavras a mensagem de entrega das chaves é para todos aqueles que aceitaram a mensagem da graça salvadora, estes estão ligados ao Céu. Contudo quem se desliga rejeitando a graça e se coloca longe do alcance por opção própria (e aqui não é uma denominação única, mas sim a família de Cristo), está desligado dos Céus também, porque rejeitou o Reino dos Céus.

Então quando ele fala do pertencer ao corpo de Cristo, não uma denominação religiosa, mas sim à família invisível dEle na terra, é isso que determina o caminho da salvação às nações. Não é uma autoridade humana para comandar da Terra e o Céu obedecer.

Auto-título: “Conselheiro”

Voltamos à história e vemos uma gafe monumental de Pedro logo na sequencia. Ele estava cheio de si por ter compreendido algo que outros não se atentaram. Pedro se colocara no papel de conselheiro do Mestre. E se ainda há alguma dúvida a respeito de quem é a rocha, Mateus esclarece por completo através do comportamento de Pedro nos versos 21 a 23. Agora que Jesus tinha um núcleo de seguidores que verdadeiramente cria nEle como o Messias (Mt16:16), ele entrou em um período de ensinamentos explícitos sobre a sua obra redentora. Jesus apresenta aos discípulos o que se seguiria em Jerusalém, perseguição, traição e morte de cruz. A reação imediata de Pedro ao novo ensino do Senhor mostra que eles estavam longe de compreender o significado do sofrimento do Mestre (Mt16:22).(Mateus Novo Comentário da Bíblia p.62). Pedro, intitulando-se “conselheiro” de Jesus, leva o Mestre de lado e O repreende, assumindo ter o contato direto com o Pai e estar em autoridade para Lhe “proteger“. Dá até pra imaginar a cena!

Novamente há um trocadilho nas palavras de Jesus quanto a palavra “pedra” mas dessa vez se referindo a Pedro, uma pedra de tropeço (Mt16:23). O Senhor reconheceu nas palavras de Pedro uma repetição das tentações que sofreu no deserto, cujo fim era evitar a cruz (Mateus Novo Comentário da Bíblia p.64). Satanás estava usando Pedro como instrumento seu, estava novamente tentando afastar Jesus do sofrimento que era Seu quinhão (Mateus Comentário Bíblico Moody p.82). A reação imediata de Pedro ao novo ensinamento de Jesus mostra que apesar de reconhecer Jesus como O Messias, os discípulos não compreendiam o significado do sofrimento do Mestre. Pedro acabara de demonstrar um profundo conhecimento na natureza de Cristo revelada pelo próprio Pai, e em seguida foi usado por Satanás (verso 23), ele não é e nunca foi o absoluto sobre as coisas. Pedro e Judas são exemplos claros de discípulos tentando humanamente conduzir o Mestre. Não estavam seguindo Jesus, mas tentavam impor seus próprios planos. A diferença crucial entre eles é o arrependimento, pois Pedro arrependeu-se, e se dispôs a ser disciplinado e perdoado.

Jesus não desiste de Pedro nem dos discípulos, continua nos versos 24 a 27 a descrever o comportamento de quem deseja ser Seu discípulo. Se em Mateus 11 Jesus nos convida para trocar nosso jugo pelo dele, agora ele usa uma nova alegoria: quem quiser ser Seu discípulo que primeiro negue a si mesmo e depois tome sua cruz e O siga. Existem duas interpretações possíveis segundo os comentaristas bíblicos. Uma muito conhecida na figura de morte e sofrimento. Aqui ele descreve a conversão de um pecador que deve reconhecer a sua própria pobreza espiritual e, então, aceitar a Cristo (Sua pessoa e ensinamentos), mesmo que isso signifique assumir, sob certo sentido, um sofrimento que de outra maneira não ocorreria. Outra interpretação analisando o radical grego da palavra levantar pode ser entendido como renunciar as imposições da própria vontade. “Tome sobre si” (24), do original quer dizer “levantar”. A palavra é mais forte do que é usada em Mateus 10:38 e implica que a cruz deve ser levantada para que todos possam vê-la. Jesus utiliza mais um trocadilho para resumir a ideia principal da vida do discípulo de Cristo; “quem quiser salvar a sua vida perde-la-á, e quem perde a vida por Sua causa acha-la-á” (Mt16:25), e finaliza tirando os olhos dos discípulos das coisas terrenas e apontando para o futuro, para Sua segunda vinda quando “retribuirá todos os fiéis segundo suas obras” (Mt16:27). Este tema já era atual naquela época e continua ainda hoje. Vivemos em uma sociedade tão individualista e voltada para a satisfação da nossa vontade, que não conseguimos entender o que é ser cristão, negar as vontades humanas, tomar nossa cruz e seguir a Jesus.

Abnegação das vontades próprias conduz ao Pai (salvação), o oposto produz resultado contrário (perdição).

Visitantes Especiais

O capítulo 17 de Mateus se inicia com a visita de Moisés e Elias, que vieram pessoalmente para confortar o Mestre. Por terem passado aflições semelhantes na busca de salvação à homens indignos/ingratos, estes dois representantes da raça humana foram escolhidos por Deus nesta missão. Ao interromperem este momento, o céu se manifesta para conscientizar os discípulos de quem é Jesus (algo que Pedro acabara de declarar momentos antes), “escutai-O” é a ordem divina, entregando a autoridade nas mãos de Cristo (e não de homem algum) para definir os próximos passos (verso 5).

Vejamos detalhes interessantes sobre a transfiguração de Jesus. Transfiguração significa mudar sua forma e aparência, O rosto de Jesus resplandecia como sol e Suas vestes tornaram-se brancas como  a Luz. Pedro, Tiago e João eram os mais chegados a Jesus, a presença de três pessoas cumpre a lei de Moises que exige pelo menos 3 pessoas para o testemunho ser válido.

A presença de Moisés e Elias representa a lei e os profetas do Velho Testamento. Em uma análise mais profunda, o contexto dá a entender que representavam tipos de pessoas que estarão na segunda vinda de Jesus. Moisés representa os justos que morreram e serão ressuscitados. Elias os que estarão vivos e serão transladados. É consenso entre os críticos que este episódio tinha o intuito de animar Jesus e encorajá-lo a enfrentar os terríveis acontecimentos que necessitava cumprir para salvar a humanidade. Não vieram anjos, mas sim seres humanos que passaram por provas semelhantes e por isso carregavam as condições de entender e encorajar Cristo neste sentido. Serviu também de encorajamento especial para os 3 discípulos que presenciaram tudo e viram mais uma vez Jesus ser confirmado pelo Pai como filho muito amado. O que impressiona é entender que naquele momento Cristo já conhecia a história. Da traição de Judas ao calvário, Ele sabia em detalhes o que se daria a seguir. Mesmo assim se abaixa e toca os discípulos para lhes encorajar: “Erguei-vos e não temais” (Mt.17:7).

Uma Questão de Autoridade

Mateus 17:24-27 relata a ida de Jesus à Cafarnaum, era a visita final a essa cidade que era a Sua residência. Ao chegarem foram questionados: “Não paga o vosso mestre as duas dracmas?” (verso 24). Esse tributo eclesiástico, baseado em Êx. 30:11-16, era originalmente para o sustento do Tabernáculo, e foi reinstituído depois do exílio (Ne.10:32 – a terça parte de um siclo). Parece que nos dias de Jesus os judeus seguiam o plano anual de Neemias, mas cobravam a taxa de Moisés. O pagamento, geralmente feito na primavera, estava com alguns meses em atraso.

Didracmas (24). Gr. ta didrachma, “duas dracmas”, que era a taxa de meio siclo que cada judeu maior de vinte anos deveria recolher para a manutenção do templo. Contabilizando nos dias atuais, era cerca de vinte centavos americanos. Os alheios (26). Os povos subjugados sempre pagavam uma taxa mais pesada e pagavam primeiro. Os filhos, isto é, o povo do rei era livre. O Senhor Jesus Cristo era senhor e dono do templo e não lhe cabia pagar a taxa. Entretanto, sua recusa em pagá-la bem podia ser mal entendida e, nesta circunstância, o Senhor não quis ofendê-los. De outro lado, quando um princípio fundamental estava em jogo, o Senhor não modificava sua mensagem para não ofender.

Um estáter (27). Esta moeda de prata era a tetradracma – gr. statera – que equivalia ao siclo e era a quantia exata para o pagamento da taxa de duas pessoas. (Mateus Novo Comentário da Bíblia 67).

Um relato fantástico onde Pedro exitou por um instante e declarou aos fariseus que Cristo pagaria os impostos, talvez por temer a possível reação dos cobradores ao declarar eventualmente que o templo era “a Casa do Seu Pai”. Na sequencia, com paciência e amor, Jesus ensina a Pedro – mais uma vez – Sua autoridade ao relatar que o valor exato para reparar seu deslize estaria na boca de um peixe. Jesus poderia simplesmente tirar de Seu bolso a quantia, contudo o movimento de ir até o mar, lançar o anzol e encontrar a moeda no primeiro peixe, revelaria aos espectadores mais uma vez quem estava no controle. O prodígio foi uma demonstração da autoridade que Jesus tinha, não só sobre o templo, mas também sobre toda a criação.

Para Refletir

Pedro foi um cara problemático para conviver… altos e baixos definem bem como foi sua vida. Mesmo assim Jesus o escolheu para estar entre os mais próximos em Seu ministério. É fácil nos identificarmos com Pedro, até quando ele negou conhecer Jesus.

A pedra não é Pedro, nem Paulo, nem qualquer outra fígura carismática que se enquadre na história da igreja. Afinal de contas, uma edificação não pode se sustentar em algo passível de erros e falhas.

A Bíblia toda ecoa a verdade que a Rocha é Cristo, a pedra rejeitada pelos construtores, a pedra angular, o fundamento. A pedra é a verdade que Pedro acabara de mencionar a respeito do Filho do Deus vivo, e é nossa fé neste Cristo que pode sustentar o evangelho, fazendo com que avance além dos limites do reino do mal, vencendo as forças do inimigo, e impondo o Reino de Deus para sempre.

Guilherme, Ricardo e Jeser

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