Culto de Adoração (Sábado 25/01/2020)
24/01/2020
Meditação diária de 25/01/2020 por Flávio Reti – O Arco (abóbada)
25/01/2020

Comentários da Lição 4 (1o Trim/2020) pelo Ancionato

​“Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, Ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei” (Dn 3:17).

A lição dessa semana nos levou às planícies de Dura, na Babilônia, frente a uma estátua feita totalmente de ouro e de uma fornalha incandescente. Alguns personagens, bastante conhecidos, estavam lá, além de uma grande multidão de anônimos que, certamente, foi impactada com os acontecimentos que se seguiram. Por mais que a história seja conhecida, algumas perguntas podem sempre nos surpreender ao lermos com mais detalhes ou refletirmos mais sobre ela, como fomos convidados a fazer na lição dessa semana. E, talvez, uma das mais supreendentes perguntas possa ser: quem sou eu nessa história?

Como assim “quem sou eu”? Em outras palavras, com quem me identifico e posso tirar lições dessa história?

É natural que, desde crianças, para os que tiveram a oportunidade de uma educação crista desde cedo, que sejamos colocados na posição dos heróis da Bíblia. Ouvimos sobre Davi e somos convidados a nos colocar no lugar de Davi. Ouvimos sobre Ester e, da mesma forma, somos inspirados a nos comportar como Ester nos colocando, primeiramente, no lugar dela. Não é um exercício novo. Mas uma perspectiva nova é que nos imaginarmos no lugar de Nabucodonosor, no lugar de Sadraque, Mesaque ou Abede-Nego ou, ainda, no lugar de ninguém! Vamos tentar?

Nabucodonosor não era um incauto ou um ignorante. Ninguém chega a ser soberano do maior imprério da Terra em sua época sendo um tolo. Da perspectiva espiritual sim, podemos considerá-lo tolo pelo que conhecemos da história, mas da perspectiva temporal, era um dos mais fantásticos governantes: fez crescer um reino reconhecido pelo poder bélico-militar, pelas belezas artísticas e pelas realizações arquitetônicas partindo de uma sociedade agrária no meio de uma região inóspita, ainda que próxima de grandes rios. Tinha muitos méritos, era temido, era inteligente. Dentro do que acreditava, dominava a astronomia, a astrologia, as ciências políticas. Era hábil na condução de um exército, um grande estrategista e um administrador eficiente. E se você tem dificuldades em concordar com essa descrição, chegando a se incomodar com esses elogios a Nabucodonosor, lembre-se de que a profecia que foi apresentada a partir de um sonho dele começa com uma cabeça de ouro que era a representação dele e de seu reino! Deus mesmo indicou, portanto, que as obras de Nabucodonosor eram admiráveis e que o resultado do seu trabalho e de sua liderança eram muito relevantes na histíoria da humanidade. Não estamos, portanto, falando de qualquer um: estamos falando do grande Nabur-sur-usur, soberano da Mesopotâmia, rei da grande Babilônia! Mas que sim, mesmo com tudo isso, foi ensurdecido por suas próprias realizações e não ouviu a voz do Eterno.

Lembre-se que Nabucodonosor, apesar de ser o conquistador e escravagista dos hebreus, ele não os aniquilou. Ao contrário: buscou de dentro do povo hebreu jovens com os quais pudesse aprender alguma coisa, ampliando sua cultura. Ele ouviu a interpretação do sonho, por Daniel e posteriormente fez dos jovens hebreus uma espécie de secretários estaduais de administração e gestão. Até esse ponto da história, inclusive, um comportamento bastante admirável, não acha?

A perda de rumo foi quando, a partir da descrição dos predicados e realizações acima, Nabucodonosor entendeu que poderia mudar não apenas a sua realidade, mas o próprio desígnio de Deus sobre a história. A afronta não foi apenas a egolatria, ao construir uma estátua de si mesmo, mas a afronta de dizer, com aquilo, que Deus estava errado e que ele mesmo poderia determiner seu próprio rumo e o rumo da história. Isso ia além do livre-arbítrio: beirava a disputa braço a braço com Deus no desenho da história da humanidade.

Compreendeu como visualizar a estátua em Dura e pensar no contexto nos aproxima, muitas vezes, de Nabucodonosor? Somos, muitas vezes, diante de sucesso profissional, respeito público, lisonjas e elogios exagerados, tentados a nos tornar tão conscientes de nossa competência humana e tão suficientes em nossas capacidades, que acreditamos que Deus está errado quando nos alerta de nossos limites. Tentamos mudar o resultado consequente de nossas escolhas dizendo que Deus está errado, através de nossos atos. Sabemos que temos um curriculum com realizações importantes e esquecemos que foi Deus quem permitiu que assim o fosse para um propósito muito maior que nós mesmos.

Uma grande lição a ser tirada é: podemos fazer muito nessa vida, podemos ter destaque e podemos ser admirados por nossos realizações, mas não somos suficientes em nós mesmos. A ineficiência da fornalha que ardia 7 vezes mais quente, resultado do plano e da habilidade humanas em controlar o fogo, foi jogada na cara de Nabucodonosor quando Jesus, no meio do fogo, com seus olhos dizia: “pode esquentar o quanto quiser, nada será páreo para a mera presença de Deus”.

Corremos o risco de sermos como Nabucodonosor e a lição tirada é que Deus nos mostra nossa insuficiência cada vez que pensamos que as fornalhas que construímos e a história que escrevemos são reflexo do controle total que temos sobre a vida. E não, não temos.

Mas se você se sente melhor ao se comparar com Sadraque, Mesaque ou Abede-Nego (pode até escolher o nome com o qual você gostaria de ser tratado 😉 também há lições importantes a tirar. E começamos pela seguinte:

Apesar de termos o início de nossa lição dessa semana em Dura, a história dos três em Babilônia começa antes. Os jovens foram cativos, não estavam em uma Terra que era deles e estavam longe do ideal de Deus, mas foram tratados com relative respeito. Eram funcionários públicos graduados e já tinham um histórico de relacionamento com o rei. Ao se destacarem por ficarem em pé na planície enquanto todos se ajoelhavam, não estavam sendo “apresentados” à corte. Ao contrário: já eram conhecidos por muitos, alvo de ciúmes por outros e admirados por muitos outros desde sua jornada de testes intelectuais de algum tempo antes. Os três jovens, portanto, tinham uma residencia secular, numa Terra secular, com um emprego secular, com relacionamentos profissionais e pessoais seculares e, mesmo assim, possuiam uma vigorosa retidão espiritual.

Ao nos identificarmos com os três devemos considerar que termos um emprego numa atividades não religiosa em sua natureza, morarmos em lugar não exclusivo de cristãos, termos relacionamentos profissionais nos quais o tema espiritual não é a conversa de todos os momentos não é um problema e não impede que tenhamos oportunidades de testemunho nos quais os primeiros beneficiados somos nós mesmos! Uma vida “secular” é um efeito colateral da residência em um reino que não é para nós, mas não é um veredito de que não podemos viver como cidadãos do reino.

E a pergunta é: foi fácil compreender essa comparação? Imagino que sim. Mais confortável do que nos compararmos a Nabucodonosor, certamente. Mas há um fato importante e grave, aqui: justamente para nós, que nos identificamos com os jovens hebreus, as oportunidades muitas vezes serão provas e nos é exigida a máxima obediência, mesmo em troca da vida, como nos mostra o texto inpirado de Ellen White:

“Importantes são as lições a serem aprendidas da experiência dos jovens hebreus na planície de Dura. Nos dias atuais, muitos servos de Deus, embora inocentes de qualquer obra má, serão levados ao sofrimento, humilhação e abuso às mãos daqueles que, inspirados por Satanás, estão cheios de inveja e fanatismo religioso. A ira do homem será especialmente despertada contra os que santificam o sábado do quarto mandamento; e por fim um decreto universal denunciará estes como dignos de morte.

“Os tempos de provação que estão diante do povo de Deus reclamam uma fé que não vacile. Seus filhos devem tornar manifesto que Ele é

o único objeto do seu culto, e que nenhuma consideração, nem mesmo o risco da própria vida, pode induzi-los a fazer a mínima concessão a um culto falso. Para o coração leal, as leis de homens pecaminosos e finitos se tornam insignificantes ao lado da Palavra do eterno Deus. A verdade será obedecida, embora o resultado seja prisão, exílio ou morte” (Ellen G. White, Profetas e Reis, p. 512, 513).

Precisamos de coragem e fé. Não as temos o suficiente (lembra que somos insuficientes?). Precisamos de Deus tanto quanto Naucodonosor, mesmo sendo Sadraques, Mesaques e Abede-Negos.

Por fim, podemos nos comparar com… niguém! Isso mesmo, com um daqueles ninguéns, que eram todo mundo e estavam em pé e depois ajoelhados na planície. Era gente que não tinha nada a ver com aquela história, que não queriam ser queimados vivos. Muitos até nem concordavam com aquela cena toda, de ter que se ajoelhar para o rei. Não tinha essa crença no coração (de que o rei era um deus), mas simplesmente não queriam encrenca. Não tinham a visibilidade dos jovens, não tinham a proximidade com o rei. Só viviam ali. Só queriam ficar tranquilos, sem arranjar problema com ninguém. Justo, não acha?

A inspiração também nos mostra que não ficaram neutros após o espetáculo que viram. Aliás, que aquilo que presenciaram era justamente para servir de exortação para que compreendessem que uma vida com propósito e fé é mais importante do que a propria vida, fisiologicamente falando. E partir daquele momento, não havia mais a opção da neutralidade: por mais que não quisessem problema, deveriam escolher entre o que ouviram do rei e o que viram do Deus Eterno.

Se nos compararmos aos “ninguéns”, aqueles que não eram os heróis da história, os discretos que apenas não queriam problema, devemos entender que não há mais a opção de neutralidade para nós. Não estávamos, literalmente em Dura, mas vimos e ouvimos Deus se manifestar muitas vezes para dizermos que não queremos escolher o lado, apenas não queremos problemas. Dura foi para os “ninguéns” espalhados pela planície. Dura foi para nós, hoje.

“Assim aqueles jovens, imbuídos do Espírito Santo, declararam a toda a nação a sua fé, que Aquele que adoravam era o único Deus vivo e verdadeiro. Essa demonstração de sua fé foi a mais eloquente apresentação de seus princípios. Para impressionar os idólatras com o poder e a grandeza do Deus vivo, Seus servos devem revelar sua reverência para com Ele. Têm que tornar manifesto que o Senhor é o único objeto de sua honra e culto, e que consideração alguma, nem mesmo a preservação da vida, os pode induzir a fazer a menor concessão à idolatria. Essas lições têm influência direta e vital sobre nossa experiência nestes últimos dias” (Ellen G. White, Nos Lugares Celestiais, p. 149).

E esse comentário se encerra com dois destaques importantes:

  • Ao final da vida, depois de uma temporada de loucura bestial, Nabucodonosor compreendeu sua insuficiência e percebeu que Dura era uma lição para si mesmo. Pergunte e ele mesmo, no Céu, quando estiver lá, como foi essa descoberta! 😉

  • A história da lição nos mostra três jovens que foram arrancados do palácio e jogados na fornalha, mas o título dela é ‘da fornalha para o Palácio’. Não importa quem somos ao redor da fornalha dessa Terra: reis, jovens hebreus ou ninguém. Nossa jornada começa aqui, mas está desenhada para os Palácios Celestiais.

 

Luís Henrique Dos Santos é membro da Igreja do UNASP campus Hortolândia desde 1978 e colabora, hoje, como ancião.

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