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Comentários da Lição 3 (3o Trim/2019) por Pastoral UNASP-HT

Lição 3: Sábado: Um dia de liberdade

É palpável para quase todas as pessoas da época atual que a sociedade se encontra envolvida em um ritmo de velocidade incansável. Eugênio Trivinho (2007, p. 62-64) aponta que esse ímpeto imediatista esteve presente em muitas sociedades ao longo da história. Por exemplo, a velocidade que foi necessária às tropas romanas para a expansão territorial do seu império. No entanto, na sociedade atual que é envolta na cibercultura, isso tornou-se ainda mais drástico, pois o imediatismo afeta até mesmo a maneira como se compreende as relações sociais. Nesse sentido, o descanso sabático do texto bíblico não tem que ver apenas com um dia de descanso, mas com uma forma diferente de compreender a realidade.

O relato bíblico da criação apresenta-se como uma narrativa bem estruturada, em que a descrição de cada um dos seis primeiros dias repete expressões como: “Disse Deus”, “viu que era bom”, “houve tarde e manhã”, etc. É aí então que o sétimo dia aparece como uma quebra dessas repetições, tornando-se o clímax do texto. Nesse dia o Criador não apenas fala que o que fez foi bom, ele o abençoa e santifica.

No entanto, a descrição desse dia apresenta uma relação entre Deus e criação bem diferente do que era comum nos mitos do Antigo Oriente Médio. Por exemplo, a épica babilônica de Enuma Elish descreve que o deus Marduke criou os seres humanos a fim de servirem aos deuses e conceder-lhes descanso. Já o relato bíblico apresenta um Deus que, ao completar seu trabalho criativo, estende o descanso para sua criação e criaturas. Por ser o sétimo dia descrito como presente as suas criaturas, Karl Barth (1958, p. 217) aponta que “sua liberdade sabática, seu descanso e alegria tinha como único parâmetro a obra de Deus e não a sua própria”.

Outro aspecto sobre o sábado que é ressaltado no relato da criação é a santificação, visto que em Gênesis 2:3 o termo kadosh (santo) aparece pela primeira vez. Para o rabino Abraham Joshua Heschel (2005) o fato de que Deus não santificou nenhum local ou objeto, mas sim um espaço de tempo, aponta que o sábado é um “templo no tempo”. Assim, o encontro com a divindade não possui limitações geográficas, econômicas ou sociais, pois todas as pessoas têm acesso ao tempo, e é nele que Deus se apresenta.

Nesse sentido, o descanso sabático é mencionado nos mandamentos da aliança de Deus com Israel como uma ordenança indiscriminatória que envolve israelitas e estrangeiros, senhores e servos. Em Êxodo 20:8-11 o sábado é colocado como um memorial da criação, onde há um chamado para imitar o Criador, descansando em seu santo dia. Já na repetição das leis em Deuteronômio 5, nos versos 12 a 15, o dia de repouso é ordenado com base no ato redentor de Deus para com os israelitas no Egito. Aqui o povo de Israel é colocado em par de igualdade com os seus servos, pois também tinham estado na casa da servidão do Egito. Assim, o Sábado é apresentado como um sinal da aliança com um Deus que é Criador e Redentor, onde suas criaturas são chamadas a seguir seu exemplo (LARONDELLE, 2016, p. 10).

De modo parecido o sábado continua a ser apresentado no texto bíblico como um fator de libertação social. Isaías 58, por exemplo, relaciona o cumprimento do descanso sabático com deixar de lado seus próprios interesses, antes exalta a necessidade de pleitear pelo direito do órfão, da viúva e do estrangeiro. Já os evangelhos retratam Jesus fazendo milagres e curas para aliviar o sofrimento das pessoas ao seu redor nas horas sabáticas (Mt 12:9-13; Mc 1:21-26; 3:1-6; Jo 9:1-16). Em ambos os casos, o mandamento não se mostra um fardo, mas sim, como uma nova forma de viver pautada no amor e igualdade.

Nessa perspectiva, é possível perceber que a religião bíblica constrói sua arquitetura do sagrado em torno do tempo, pois nele Deus age e se encontra com a raça humana. Esse encontro com o divino, chamado sábado, é essencial para compreensão de quem é o Criador, quem somos nós, e qual é nosso dever para com aqueles que nos cercam. Como Heschel (2005, p. 303) disse: “É um dia em que somos chamados para partilhar daquilo que é eterno no tempo, a se voltar dos resultados da criação para os mistérios da criação, do mundo criado para a criação do mundo”.

 

Referências

BARTH, K. Church Dogmatics. Edinburgh: T & T Clark, 1958. v. 3.

HESCHEL, A. J. The Sabbath. New York: Farrar Straus Giroux, 2005.

LARONDELLE, H. K. Nosso Criador Redentor. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2016.

TRIVINHO, E. Dromocracia cibercultural – Lógica da vida humana na civilização mediática avançada. São Paulo: Paulus, 2007

Por Pr. Matheus Eduardo

 

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