Culto de Adoração (Sábado 28/09/2019)
27/09/2019
Meditação de Pôr do Sol 27/09/2019 por Helenice de Oliveira Correa
27/09/2019

Comentários da Lição 13 (3o Trim/2019) por Pastoral UNASP-HT

Lição 13: Uma comunidade de servos

Apeguemo-nos com firmeza à esperança que professamos, pois aquele que prometeu é fiel. E consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras (Hb 10:23,24).

 

O ano de 1961 assistiu um dos julgamentos mais importantes do século, onde Adolf Eichmann, um oficial nazista, passou por um tribunal em Jerusalém, sendo acusado por atrocidades ocorridas no período do holocausto. Durante o processo judicial ele constantemente se justificava afirmando que cumpria ordens, nunca havia matado ninguém, mas que era apenas um burocrata que organizava o transporte dos judeus aos campos de concentração (ANDRADE, 2010, p. 109-113). Por conta dessa situação, a atenção de Hanna Arendt, professora e filosofa alemã que lecionava nos Estados Unidos, decidiu ir a Jerusalém e acompanhar o processo. Dessa experiência resultou a produção de seu livro “Eichmann em Jerusalém”, uma das mais importantes obras da filosofia no século XX.

Em seu livro, Arendt (1999, p. 143) aponta que Eichmann errou ao deixar que sua consciência se tranquilizasse por apenas seguir os comandos, sem questionar a moralidade de tudo que estava acontecendo. Assim, ao deixar de pensar, ele acabou apoiando e tomando parte ativa em um dos mais terríveis episódios da história humana. Dessa forma, a autora analisa que não é necessário ser sádico ou pervertido para coagir com a maldade, pois deixar de refletir sobre a justiça já faz com que muitos se tornem participantes do que ela chama de “banalidade do mal” (1999, p. 299). Nessa perspectiva, ela implica que o mal sempre esteve presente na história humana, e que a necessidade de tomar parte ativa contra a injustiça dominante é o caminho para não se tornar coparticipante da maldade.

Tomando por base tal reflexão, faz-se necessário que a igreja, como “corpo de Cristo”, também reflita sobre como desempenhar um papel ativo no combate contra o mal que traz mazelas aos mais diversos âmbitos da sociedade. Ainda que seja inegável compreender biblicamente o Reino de Deus, no ponto de vista escatológico, Jesus também afirmou que ele já havia chegado até seus discípulos (Lc 11:20). Dessa maneira, enquanto embaixadores de Cristo (2 Co 5:20) nessa dimensão de seu reino, os cristãos não podem esquivar-se da responsabilidade de fazer com que a sua representação seja efetiva no seu meio.

A fim de compreender a importância da obra da igreja a favor dos seus semelhantes, a análise de textos como a poesia de Filipenses 2:5-12 toma extrema relevância. Essa constatação pode ser bem clarificada com o tom alegre com que Paulo parece escrever à querida igreja que ele havia fundado na cidade macedônica de Filipos. Isso demonstra-se no fato de que ele repete por cinco vezes o substantivo “chará” (alegria) e nove vezes o verbo “chairen” (alegrar-se) ao longo de uma epístola que possui apenas quatro capítulos. Assim, o apóstolo manifestou a alegria em ver que aquele grupo de cristãos estavam vivendo em dedicação e generosidade o evangelho que lhes fora apresentado (CARSON, MOO, MORRIS, 1997, p. 362).

No entanto, em 2:1-4, ele exorta seus irmãos quanto ao que eles podiam fazer para completar a sua alegria. Eles deveriam acautelar-se em viver a unidade de amor, considerando os outros superiores a si mesmo, cuidando dos interesses daqueles que os cercavam. É então que Paulo escreve de modo poético como a pessoa de Cristo Jesus deveria ser o modelo para sua maneira de pensar, sentir e agir.

Nesse sentido, os versos cinco e seis iniciam a poesia chamando os crentes filipenses a terem a mesma disposição que houve em Jesus, o qual, mesmo sendo Deus, não se apegou a isso. Assim, é relatado que Ele tomou uma atitude enfatizada aqui como esvaziar-se (ekenosen), onde as glórias celestiais não se comparavam com o propósito de tornar-se um homem, em forma de servo e obediente até a morte de cruz. Dessa forma, a trajetória do Messias carrega uma sublime descrição de abnegação, tornando-se um paradigma para o viver do cristão, que também deve praticar o esvaziar-se (ekenosen) em prol do semelhante.

A partir dessa perspectiva, pode-se compreender esse texto como continuação do conceito estabelecido em Gênesis 1:26, a imagem de Deus no homem. Ideia essa que define o ser humano como representante de seu Criador no “cuidado com todas as coisas, animadas e inanimadas” (LARONDELLE, 2016, p. 6). Sendo esse Criador também redentor da humanidade caída, os que se chamam Seus filhos devem tomar parte na mesma obra, que, por fim, os fará participar da glória do Cristo exaltado, descrita no final da poesia de Filipenses 2:5-11.

Dessa maneira, é necessário que a igreja não se acomode à banalidade do mal vigente, antes, que tome parte da reflexão, questionamento e ações que levem justiça a todo e qualquer ser humano. Isso resulta na representação fidedigna do Reino de Deus aqui, mas também na preparação para a pátria porvir. Tal posicionamento exige que cada membro do corpo de Cristo compreenda que a função primordial de sua existência é viver refletindo a imagem do Criador e Redentor.

 

Referências Bibliográficas

 

ANDRADE, M. A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral: contribuições arendtianas. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, v, 15, n. 43, 2010.

ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das letras, 1999.

CARSON, D. A.; MOO, D. J.; MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

LARONDELLE, H. K. Nosso Criador Redentor. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2016.

 

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