Meditação de Pôr do Sol de 21/08/2015 por Filipe Freire
21/08/2015
Meditação de Pôr do Sol de 28/08/2015 por Vitor A. O. Rocha
25/08/2015

Comentários da Lição 8 (3ºTri/2015) por Wagner Teoro

Querido Amigo,

A lição dessa semana acomodou-se em boas lembranças. Há exatos quatro anos estava na África, em missão transcultural. Lembro-me das inúmeras reuniões, foram meses de preparação. Eram muitas as demandas e as informações. O que fazer e o que não fazer, como evitar a malária, discussões sobre as necessidades locais, entendimentos a respeito da estrutura. Mas também nos informamos sobre as pessoas, sua expectativa, e sua cultura. Queríamos minimizar as diferenças que poderiam delas nos separar. Queríamos ser bem aceitos, e nos preparamos para as aceitar. Foram cerca de três semanas de ricas experiências que deixaram marcas de boas saudades em cada um de nós.

Em Munguluni, onde estávamos, também havia mulher junto ao poço. Uma porção delas. Aglomeravam-se para encher os baldes d’água que voltavam cheios e equilibrados sobre a cabeça até suas casas. O poço era uma festa! A água jorrava ali. Em solidariedade, vez ou outra, cedíamos a elas a vez. Independentemente de nossas diferenças de idioma, de cor, e de cultura, diante do poço, nos comungávamos em torno de única verdade, todos nós queríamos daquela água e ela era suficiente a todos nós. Jesus, no poço, também encontrou uma mulher. Samaritana, de suas diferenças foi levada por Cristo a perceber a sede que tinha da água viva que se encontrava ali. “Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede…”. Cristo nunca recusou o poço a ninguém! E nós também não o recusaremos. O acesso à fonte é livre, grátis, e a qualquer pessoa, pois todos que têm sede são convidados a vir às águas. Cabe a nós, missionários, ceder a vez. E quando isso acontece nos percebemos que ao ceder a vez da água viva ao outro, Cristo dá-se de beber a nós.

Lembro-me de nossos motoristas na África. Joséfa e João Baixinho, essa dupla incansável nos acompanhou na missão. Dirigiram o valente Zunga, o ônibus padrão moçambicano que arrumaram para nós. Zungamos por quilômetros e noites a fio. Quebramos várias vezes, mas graças as criativas gambiarras de João Baixinho, o Zunga não esmoreceu. Felizes, bem humorados, conquistaram nosso coração. Ao final da missão, fomos todos almoçar juntos. Restaurante para eles era um luxo inacessível, mas em nossa mesa de celebração, eles tinham o seu lugar. Que alegria ver João Baixinho comendo sem constrangimento com as próprias mãos! Ele estava à vontade. E nós também. Cristo disse que “Muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares a mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus.“ Se referia ao centurião romano, que tinha um servo doente a quem queria ver curado, mas não se achava digno de estar com Jesus. “Senhor, não te incomodes”, disse ele. Mas esse homem tinha mais fé do que em Israel, e aquilo que pediu, recebeu. Se o estrangeiro tem lugar na mesa de Cristo, quanto mais deve ter lugar na nossa.

Fizemos algumas ações na comunidade de Munguluni, pintamos o posto de saúde, prestamos atendimentos médicos a centenas pessoas, visitamos e oramos com muitos em suas casas simples, semelhantes a ocas indígenas, tivemos atividades com as crianças e com os adultos, estudamos a bíblia todas as noites, aconselhamos pessoas, levantamos uma igreja local. Foi o possível a ser feito no tempo que ficamos ali. Precisávamos voltar para casa. E muitos queriam ir embora conosco. Mas quem continuaria o trabalho iniciado? Essa é uma importante questão da missão. Preparar pessoas para ficar e dar continuidade à obra missionária. Em Munguluni, essa tarefa ficou com a liderança local. Até Jesus cruzou o Mar da Galiléia para ir a um território estranho, onde operou um único milagre. O homem gadareno, livre dos espíritos maus, também suplicou a Jesus para ir com Ele. Mas Jesus o disse: “Vai para a tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez”. “Então, ele foi e começou a proclamar em Decápolis tudo o que Jesus lhe fizera; e todos se admiravam”. Amigo missionário, o melhor que se pode deixar na missão, é um novo missionário.

Não me recordo o nome, mas ele voltou para agradecer. Muitas pessoas presenteamos com bíblias, mas uma tem para mim um valor especial. Esse jovem devia ter seus 17 anos. No final de uma das noites ele me fez um pedido. Queria muito ter uma bíblia. Na noite seguinte foi uns dos primeiros a chegar e o último a sair. Seus olhos brilhavam com um sorriso espontâneo pela bíblia que lhe dei. Findou a semana, e no último dia da missão muitos foram batizados num tanque ao ar livre. Centenas vieram ver a festa. Em pé, sobre o quente sol do meio dia, vibravam a cada batismo que se realizava. Pessoas acompanhavam penduradas em árvores, a fim de ver os novos conversos. Com certa dificuldade, subi com mais alguns amigos na torre mais alta da igreja. De repente, ouço uma voz. Era o jovem. Ele havia me procurado a manhã inteira. Subiu com dificuldades, pois tinha nas mãos um saquinho de papel contendo alguns ovos. Ele voltou e gostaria que aceitasse aqueles ovos como retribuição pela bíblia que recebeu. Eu sabia que ele e sua família não possuíam muito o que comer. E aqueles ovos representavam muito do pouco que tinham. Poderia lhe faltar alimento, mas transbordava nesse jovem gratidão. De todos os leprosos que Jesus curou, somente um samaritano voltou para agradecer. Ele reconheceu que a doença que tinha não foi barreira para Jesus. Os nove que não retornaram para agradecer somam-se a milhares que jamais tornarão. Jesus sabia quem retornaria, mas curou a todos e se alegrou em vê-los felizes por terem sido curados. Missão não se faz por recompensa, missão se faz por amor.

Os gregos vieram a Jesus dias antes da cruz. O evangelho se espalharia a partir do pentecostes com a igreja primitiva, fundada em Antioquia. Os judeus hebreus encontravam na lei a porta de entrada para a sinagoga. Mas os judeus cristãos, viam na graça a porta de entrada para um movimento espiritual no mundo, cujo convite era estendido a todos. O evangelho seria levado aos confins da terra e esse movimento precisa continuar nos dias de hoje. Quando cruzamos as fronteiras de nosso preconceito vemos cada pessoa como nós nos vemos, dependentes da graça de Cristo. Vivemos cercados por leprosos, gregos, centuriões, e gadarenos, pessoas que tem sede da água viva, como a mulher samaritana junto ao poço. Não permitamos que nossas barreiras pessoais ou diferenças, sejam barreiras construídas ao redor da fonte. Saudades de munguluni. Vontade de um dia voltar.

Wagner Teoro

 

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