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Comentários da Lição 6 (3ºTri/2015) por Wagner Teoro

6 de agosto de 2015

 

“e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada rainha?” Ester 4:14

 

Querido amigo,

O Brasil é um país de maioria cristã. São milhares e milhares espalhados em igrejas e pseudo-igrejas por aí. Segundo o “igrejômetro”, surge, pelo menos, uma igreja a cada duas horas por aqui. Em terras tupiniquins, ser cristão é moleza. Mas isso não é assim em todo mundo. Existem lugares em que cristão não é bem vindo e nem bem visto. Por exemplo, na Coréia do Norte, a “Top Ten” da perseguição. Lá, ser cristão é crime! Para se ter uma ideia, em 2013, 80 pessoas foram fuziladas num estádio esportivo, diante da arquibancada cheia, por conta de possuírem uma bíblia. É o lugar dos fiéis mais perseguidos da terra! Também não é nada fácil ser cristão na Somália, onde pais e filhos são mortos apenas por serem identificados como seguidores de Jesus. Para os somalis, quem troca o islamismo pelo cristianismo não é digno de confiança e deve ser torturado e morto. O mesmo ódio se vê na Síria, no Iraque, no Afeganistão e muitos outros. Em todos esses lugares, os cristãos possuem identidade ultra-secreta, e com a fé guardada a sete chaves os corajosos  missionários contam com a sabedoria e proteção divina para promover o cumprimento da missão, onde Deus se escreve somente em entrelinhas.

Essa é a realidade que destaca-se na história bíblica de Ester, também chamada Hadassa, para quem assim o preferir. Por volta de 483 a.C., o festeiro rei da Pérsia, Xerxes, ou Assuero, para quem também assim o preferir, após dar um banquete de ostentação de 180 dias aos seus príncipes e servos, resolveu estender a festa para os homens comuns do povo. Open bar real, a regra era beber sem moderação e constrangimento. No sétimo dia, já para lá de embriagado e perturbado pelo vinho, o o jactancioso rei resolveu exibir aos bêbados do reino a maior jóia de um homem, sua esposa. Polígamo, ele tinha várias, mas de todas, pediu aos seus eunucos que fossem buscar a bela Vasti.  Em sã consciência a rainha negou o chamado. Jamais se daria a expôr-se assim. Enfurecido, o rei chamou os especialistas para dizerem-lhe o que fazer com sua insubordinada esposa. Diante da impotência real, os “sábios” dizem que Vasti, ao ofender o rei, ofendeu a masculinidade de todos os homens do reino. Pois, se tamanho desacato não recebesse uma resposta firme, correria entre as mulheres a notícia feminista da irreverência, e no dia seguinte haveria “muito desprezo e indignação”. Nenhum homem mandaria mais em sua própria casa, disseram eles! (não é de hoje que os homens temem o domínio das mulheres). Posto o risco, Vasti foi destituída de rainha, sendo enviada ao reino a mensagem seguinte: “que cada homem fosse senhor em sua casa”. O “status quo” estava preservado.

Mas como todo o homem bobo que age em momentos de fúria, o rei depois se arrependeu e sentiu saudades. Então, para aplacar os sentimentos de Assuero, os jovens sugeriram reunir as virgens do reino para um concurso de beleza. “A moça que cair no agrado do rei, essa reine no lugar de Vasti”.  E aqui surge Ester, jovem, linda, órfã, e exilada do povo judeu. Criada com o tio Mordecai, ou Mardoqueu, para quem assim o preferir, foi levada ao confinamento do Harém do rei, onde junto às outras candidatas embelezou-se por um ano a fim de ser apresentada ao monarca. (não é de hoje que as mulheres demoram nos procedimentos do embelezamento). “O rei amou Ester mais do que todas as mulheres..e a fez rainha no lugar de Vasti”, mas “Ester não havia declarado ainda a sua linhagem e seu povo”.

Passado algum tempo, Mordecai descobriu que dois eunucos armavam contra o rei, tendo declarado a Ester a artimanha. O plano foi contado ao rei, que constatou ser a trama verdade, pelo que os traidores foram ambos enforcados.

Depois de alguns anos, a cargo importante do reino, Assuero promove Hamã, descendente dos amalequitas. E onde Hamã passava todos se encurvavam, menos Mordecai. Por isso, o vaidoso Hamã descobre que Mordecai era judeu e jamais se prostraria senão a Deus. De ego ofendido, e com falsas acusações Hamã pede a morte dos judeus ao rei. E, autorizado com o anel real, decretou “que se destruíssem, matassem e aniquilassem de vez a todos os judeus, moços e velhos, crianças e mulheres, em um só dia”.  O decreto maldoso causou ao povo judeu luto, jejum e choro.

Mordecai, de vestes rasgadas pediu ajuda à Ester, que temeu comparecer diante do rei sem ser por ele chamada. Ao saber disso, Mordecai responde: “Não imagine que, por estares na casa do rei, só tu escaparás entre todos os judeus. Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis”, e continua com a expressão mais emblemática da história: “quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada rainha?”.

Três dias depois, após jejuar com o povo, Ester comparece diante do rei e o convida, com Hamã, para um banquete. Naquela noite, insone, Assuero recorre ao livro das memórias do reino. Nada melhor para despertar o sono do que a leitura de monótonos registros. Mas lá estava escrita a fidelidade de Mordecai, que entregou os eunucos desleais ao rei, sem receber honra nenhuma por isso.  Que importância tem uma boa Ata! A história continua. Por acaso, estava por ali o odioso Hamã, que à pergunta, “Que se fará ao homem a quem o rei deseja honrar?”, responde como se fosse a si: dê a ele cavalo e roupas reais,  e “levem-no pela praça da cidade e diante dele apregoem: Assim se faz ao homem a quem o rei deseja honrar”. Pelo que disse o rei: “Apressa-te …e faze assim para com o judeu Mordecai.” Hamã, mordido e corroído recorre aos sábios, que de forma certa sentenciam: “se Mordecai, perante o qual já começaste a cair, é da descendência dos judeus, não prevalecerás contra ele, antes cairás…”.

Angustiado por ver seus planos de extermínio ameaçados, Hamã vai ao banquete da rainha Ester, que poderia ter pedido a metade do reino, mas intercede junto rei pelos judeus, revelando a sua identidade. Alguém ofereceu recompensa pela morte da bela rainha e de seu povo. Apaixonado, o rei pergunta: Quem é esse e onde está…?. Ester responde: “…é este mau Hamã”.  O rei transtornou-se e foi para o jardim. Perdeu o fôlego. Tratava-se de seu homem de confiança versus a confiança da bela rainha. Hamã, vendo seu destino traçado, chocado caí sobre o divã onde estava Ester. Pede socorro a quem desejou matar. Recobrado, o rei retorna para dár-se com Hamã investindo sobre a rainha, e exclama: “Acaso, teria ele querido forçar a rainha perante mim, na minha casa?”. Que história, amigos! Hamã é levado a forca de mais de 20 metros que havia feito a Mordecai. E a Mordecai é entregue o anel que o rei havia dado a Hamã. As coisas mudam! Novo decreto é dado, permitindo-se ao judeus defenderem-se de seus inimigos. Mordecai é reconhecido em todo reino. Comemora-se pela primeira vez a festa de Purim, que até hoje faz parte do calendário judeu.

O Livro de Ester não menciona Deus por uma única vez. Assim como na história contada, em algumas nações, nos dias de hoje, sobre o povo de Deus também existe sentença de morte. Nos dias de hoje, como na narrativa bíblica, também existem Hamãs, autoridades que governam o ódio e erro. Mas, também, nos dias hoje, existem Mordecais, e sobretudo existem Hadassas, pessoas comuns, disfarçadas de Ester; missionários que mais do que ousar pisar em terra estranha, ousaram a terra hostil, para levar aos outros vida, mesmo que isso lhes custe a sua; pessoas que vivem o aparente paradoxo de uma missão de concreta complexidade: revelar a Deus de forma escondida; pessoas que vivem na completa dependência da proteção divina; pessoas que estão sujeitas às oportunidades casuais, que elaboram estratégias para evangelismo; que sentem o frio na barriga, o perigo constante; pessoas que não podem dar-se ao conforto das igrejas; pessoas que aguardam dias, meses, e até anos por um momento oportuno para falar de Jesus; pessoas que pela fé encaram os perigos da missão; pessoas que ao esconderem quem de fato são, mais afirmam a sua real identidade. Para esses o ir não é mais uma questão.

Mas em termos de missão, o que vale tanto aos poucos missionários no Iêmen e outros em países fechados, quanto aos mais de 160 milhões de cristãos no Brasil, e a outros milhões onde a liberdade de fé ainda existe, é o senso espiritual de oportunidade. Assim como Ester, quantos são chamados a sua própria hora, o momento em que Deus os usará para cumprir a sua missão. Por isso, o bom missionário é aquele que se abre a noção divina do tempo e da hora, ao que está sempre preparado. O missionário conectado com os propósitos do céu não perde oportunidades de viver a plenitude para o qual fora criado, revelar a grandeza da glória e da graça de Deus.

Três dias de jejum e oração antecederam a atitude da rainha Ester em dirigir-se à presença do rei. Somente com oração que se conquista a noção dos propósitos divinos nos eventos da vida, sejam os mais corriqueiros ou não. Uma conversa de escritório ou um encontro especial, uma visita de uma tarde ao hospital; um abraço ou um conselho que se arrisca, ou uma ligação a tanto tempo adiada; um momento mínimo de atenção. Apenas Deus sabe quando o Espírito age por nós. Somente Deus conhece o tempo e a hora. Assim, todo tempo é tempo e toda hora é hora. Quando se trata de missão não existe o despropício ou inimportante.

Por último, o livro de Ester ensina que o missionário cristão vê que além das circunstâncias há um Deus que não recusa a mão. Por trás da história dos homens existe um Deus discreto escrevendo-se nas entrelinhas. Por isso, missão que dá certo é aquela que Deus coloca a sua mão por trás dos fatos aparentes à visão. Apesar de todo planejamento, de toda capacidade, de toda ocasião, aquilo que parece certo somente é certo se vier de Deus a provisão. A missão é Dele, a oportunidade é nossa.

Wagner Teoro

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